espaço virtual inexistente e intransponível mas que se mostra e quer ser visto...criatura
Wednesday, April 16, 2008
Sunday, September 30, 2007
DO ABJETO À BELEZA NA FOTOGRAFIA DE JOEL-PETER WITKIN
“(...) the relation of the Other to me would tend to appear as sadomasochistic, if it did not cause us to fall prematurely out of the world – the one region where “normal” and “anormaly” have meaning.”
Maurice Blanchot
The writing of the disaster
Fotografia, momento eternizado, cristalizado pela lente e pela luz da modernidade. O flash na essência efêmera de um sorriso, de uma lágrima, de uma tragédia, desenha uma trajetória utilitária, com a fotografia de propaganda e popularização política, ou humanística, transformando-se em objeto artístico e pessoal. Imagens que acabaram tornando-se arquivo histórico, referências para a arte contemporânea. Desde o séc. XIX tem-se desenvolvido esta estranha tecnologia de reproduzir as imagens tal qual vemos pela entrada de luz por um pequeno orifício numa caixa preta. O que não cessa jamais de evoluir. Hoje parece que a fotografia impressa virou artigo de galeria. O álbum como nossas mães faziam, ficou como recordação de décadas passadas, digitalizado para que não seja comido pelas traças. Representar virou obsessão. Como diz Márcio Seligmann-Silva “queremos registrar o instantâneo do grito, registrar o temor visceral, o frio na espinha, nosso grito de horror primevo”. Em nossa cultura de traumas e recalques, a fotografia passa a ser concebida como um “traço do real” e não mais como a definição de espelho do real, ou por uma ótica romântica, como transformação do real.
Mais do que falar de fotografia, quero falar de suas provocações. Como a escritura, a fotografia não se configura na ingenuidade, e se se configurou, foi material somente de álbum de família. Ela vai de encontro certeiro exatamente no ponto visceral do recalque. Desde querer dizer alguma coisa, ou denunciar crueldades, provocar tumultos e revoltas até reproduzir a imagem pela imagem, experimentos com a própria fotografia como obra de arte, esta técnica muito se transformou carregando o olhar do expectador de um solo inundado de signos até o sertão completo da abstração.
Uma das fotografias que mais me provocou nos últimos tempos foi esta:
O Beijo (1982)
Primeiro a fotografia, depois o fotógrafo me ajudaram a pensar em questões como o abjeto, a beleza do horror, e o corpo como material para a obra de arte. Não se trata mais de usar o corpo como referência, como performance, a action painting de Jackson Pollock, a body art tribal ou dos estúdios de tatuagem contemporâneos, é o corpo material. Nada de tela, tinta, madeira ou bronze. É o corpo. “A base sobre a qual se desenvolveu e se assenta o discurso simbólico da linguagem” (como diz KRISTEVA 1980: 87 apud SELIGMANN-SILVA) O corpo abandonado, mutilado, estranho aos olhos de quem vê beleza no padrão comum, o bizarro.
O fotógrafo nova iorquino, nascido em 1939 de pais religiosos, utiliza cadáveres e pessoas com anomalias como manequins de suas composições. Para Julia Kristeva o “cadáver, que vem do latim cadere, cair, tornou-se irremediavelmente uma queda, é dejeto, é morte; ele perturba mesmo aquele que confronta sua fragilidade e flacidez”, “é a poluição fundamental; um corpo sem alma” (KRISTEVA, 1982:3 & KRISTEVA apud Seligmann-Silva, 2005:39). O fotógrafo prefere o que se chama de feio e repugnante, e o cadáver, manifestação privilegiada do abjeto. Apresentado em estética mórbida, elucida a dicotomia horror X beleza; o paradoxo da morte, em pedaços, em fluidos que ultrapassam a barreira frágil da vida no corpo, lábios cinzas e coroa de flores em plena cor.
Harvest - Death Mask 1986

Still life
A beleza para Lyotard ( no ensaio The Inhuman), demanda mais do que somente respeitar as regras de composição, ela requer um “algo a mais” anterior, também chamado de gênio ou algo incompreensível e inexplicável, um presente de Deus, um fenômeno fundamentalmente escondido que pode ser reconhecido somente pelo efeito naquele a quem se endereça.
Tal beleza se apresenta ao menino que vê os úmidos olhos de uma recém morte, a vida numa cabeça decapitada. Talvez tenha sido esta a imagem emblemática que povoou o imaginário de Witkin desde que viu a cabeça de uma grota rolar aos seus pés após um acidente em frente à porta de casa.

Cito o próprio: “aconteceu num Domingo quando minha mãe estava acompanhando meu irmão gêmeo e eu para fora do apartamento onde morávamos. Estávamos indo à igreja. Enquanto descíamos o hall até a saída do prédio, ouvimos uma inacreditável colisão misturada com gritos e chamados por socorro. O acidente envolveu três carros, cada qual com uma família. De algum modo, na confusão eu não estava mais segurando a mão da minha mãe. No lugar onde eu estava, pude ver algo rolando de uma da fendas dos carros. Aquilo parou no meio-fio à frente dos meus pés. Era a cabeça de uma garotinha. Eu me abaixei para toca-la, para falar com ela, mas antes que eu pudesse toca-la alguém me tirou dali.”
O rosto da garotinha, ainda quase viva, ali aos pés de outra criança pode ter-lhe parecido curioso e até belo. Atrevo-me a dizer que nesta experiência do abjeto, Witkin assegura cuidadosa e paradoxalmente a beleza. Para Julia Kristeva: “não é a falta de limpeza ou saúde que causa o sentimento de abjeto, mas o que incomoda identidade, sistema, ordem. O que não respeita fronteiras, posições e regras” (Powers of Horror, 1982). Transgressor? Pode ser, mas sem militantismo piegas. É a arte do horror em busca do prazer da beleza.
Interrupted reading in Paris, 1999
Arranhões e cera quente para a fotografia, faz a face envelhecida, cuidados de sensibilidade atormentada pela guerra, transferida da lente para o filme e para a revelação abaixo dos pés do oficial. O fotógrafo faz intervenções tanto nos negativos quanto nos corpos e vai poluindo, desgastando, desfocando; etapas agressivas necessárias para o efeito final.

Woman once a Bird
O feio ajuda despertar o horror que é necessário para a experiência do sublime e do abjeto, que se transferem na modernidade. O hermafrodita, o obeso mórbido, o aleijado, o mutilado, amordaçado, desfigurado, compõem esta galeria de modelos posando em cenários românticos e mórbidos. Embora os grandes pintores da história buscavam limpar a postura artificial de seus modelos, Witkin parece perseguir o personagem artificial de um modelo vivo, ou morto. São de fato dramas num palco forjado. O teatro do necrotério sadomasoquista representa imagens conhecidas.
A mitologia é também tema freqüente neste teatro freak.
À medida que a forma determina a realidade, o corte ou a deformidade passa a ser a representação do absurdo, do desastre. Neste ponto, o olho do artista desvela as imperfeições buscando nas formas carnavalescas e até circenses do horrendo, provocar o tão desejado sentimento sublime por onde a arte transita livremente.
No ensaio intitulado o Inumano, Lyotard diz que “as imperfeições e distorções do gosto e até da feiúra têm seu espaço no efeito chocante. Arte não imita a natureza, ela cria um mundo à parte (...) o monstruoso e o deformado têm seus direitos porque podem ser sublimes” (LYOTARD, 1991:97).
Por outro lado, vem a obsessão pela purificação do abjeto. Uma certa perseguição pela salvação destas almas danadas na blasfêmia. A boa piedade alheia, jogaria-se ao limbo para ser a luz dos que vivem no breu do castigo divino. No ensaio, O Local da Diferença, Marcio Seligmann-Silva explica que contra Platão, “Aristóteles afirmava que a mímeses trágica tem o poder de depuração das emoções de piedade e de temor, e dentro da perspectiva da teoria poética clássica, o abalo – em termos conceituais, o movere – provocado pela representação de cenas chocantes, que geram pena e medo, poderia ter uma conseqüência tanto prazerosa quanto útil”.
Joel-Peter Witkin começou a fotografar aos dezessete anos, quando resolveu fazer o retrato de um rabino que afirmava ter visto e conversado com Deus. Desde muito pequeno, sempre incentivado pelo pai que lhe mostrava fotos “estranhas” de revistas. Entre as várias experiências incomuns foi o exército com a missão de documentar as mortes acidentais ocorridas nos treinamentos militares.
Recebeu o titulo de Master of Arts pela Universidade do Novo México em 1976.
Quando fez sua primeira exposição individual em 1980, em Nova York, recebeu elogios extremados pela profundidade temática de sua obra, calcada nos temas da dor e da morte e apoiada por referências clássicas. Mas também foi atacado como sensacionalista, despudorado, blasfemo e outros adjetivos menos respeitáveis. Hoje vive e trabalha em Albuquerque – Novo México.
Wednesday, September 05, 2007

Composition : Blanc sur blanc, 1918 ?
Wednesday, August 29, 2007
Páginas de um diário

Wednesday, August 22, 2007
Monday, August 20, 2007
ESCOLHAS
Fumei a minha última angústia. Fumei afetos.
Estou repleta de tanto e ainda é tão pouco.
Escolhi a mistura líquida do amor e mesmo que arda, não troco.
Escolhi penetrar absurdamente no mundo do outro que é um pouco de mim, um mapa de mim, caminhos para o lugar certo.
Fumei a ânsia que mastiga minhas entranhas, fumei tudo, até o último anel de fumaça. Daí me senti tão bem e sossegada que logo quis acender outra.
Fumei teus cabelos, teus dentes, teu sexo. Fumei a lembrança achando que era saudade, só notei que era lembrança porque ela voltou.
Ela sempre volta.
Só compartilho vidas e parece que tudo na realidade é diferente. Quando olho de perto, há ali um deserto sertanejo que só se expande, que é pardo, que não tem salvação.
Mas não há só deserto. Haveria sim se o mundo fosse um deserto, um Saara, um Atacama, um Gobi, Antártica...Marte.
Quando olho de perto, atrás do olhar, vejo flores e mares e fogo, o olho de um furacão; Barcelona, Roma e Pompéia, no presente e no passado de terror cravado nos olhos de quem viu Versuvio uivar.
E como uivam os vulcões de cada outro. O meu que só eu sinto, uiva mais.
Achei feio chamar alguém de outro, mas agora não tenho saída pois o alguém é incógnito e o outro é aquele imediato a mim, que relacionado a mim está perto, e de mim recebe toda a atenção.
Poderia apaixonar-me pelo outro mas prefiro não. Isto implicaria em sentir uma dor de que já estou gasta. Escolhi amá-lo. De um amor imaculado, guardado na lista das coisas que amo mais. Depois não sei. Guardo este amor que para mim vale, valeu, valerá quando chegar a hora de olhar para trás.
E onde posso me guardar se minha casa é como uma concha, como uma casca de tartaruga onde não entro? Minha casa será o oceano. Virarei coisa, peixe, palavra.
Minha palavra escrita fica bem mo meio da linha, como carne espetada. A palavra é a carne e a pauta a espada. Se isto é vida ou morte, ou vida com dor e depois morte, ou vida com dor e depois vida, é a coisa palavra que decide. E eu fico aqui, seguindo ordens.
Wednesday, August 01, 2007
Folhas e Sono
Friday, June 15, 2007
Saturday, June 09, 2007
em bolhas pelo alheio
A realidade sem sustos de todos os dias, de fatos periféricos que acabam nem se inscrevendo na História.
Acordei de um sono intenso onde engolia palavras como combustível para o pensamento abstrato. Fui abstraindo, abstraindo minha condição humana, mulher, caindo nas garras de uma besta multifacetada que eu via figurada naquele texto. Era um medo; uma metamorfose. Transformara-se num espelho completo, a imagem: estilhaços.
A floresta imensa que tudo metamorfoseia. Primeiro meu cheiro. de gota a gota se transforma. Não reconheço. Fui me perdendo num cheiro que de tão íntimo, virou alheio; o gosto e a temperatura do alheio.
Fundindo em mim o som da selva, a água da selva, a cor da selva e já não era mais eu, acabou de ser eu. Eu estava muito minúscula para que coubesse tanto do alheio em mim e fui em bolhas passear pelo mato do mundo.
Wednesday, May 23, 2007
CÉU
e da vida contida no peito
você me fala do diminuto
iluminado que habita em cada um
e que acredita no Ser Humano.
Você me fala do medo da morte
pois tens planos
planos graves em esforço e tempo.
Fala da minha carne sagrada
e se cala quando está em mim.
Eu lhe digo que aí está o Deus
aí a vida se expande pelo corpo
e lhe falo em acreditar no agora
no peixe do ar que a lua prateia
que a estrela estreleia.
Viro sagrada no seu corpo
na sua boca infinita
desintegrada, desaparecida
no silêncio absoluto e sábio
de toda a criação
pois a vida insiste.
MAR
eu me abandono
é que o furta-cor movimento
é do mar a face
Esparramada em prata reflexo
pois essa fervura
turva e torta acaba fundindo
o que de sólida eu era
Fui sólida sim
insone, racionalista, sólida
e de tanto fugir acabei
por perder meu caçador
Virei água e escorreguei
Sou gota de orvalho
Sou represa aberta
Saturday, May 19, 2007
brilha uma estrela no teu passo
passa e eu olho
sinto teu brilho com meu nariz
e minha boca
menina estrela
lua meia
meio doido assim de longe
gosto tanto desses sorrisos
soltos ao acaso para ninguém
sorrisos que têm raízes
no solo fértil do coração
brotam largos
brilhantes e
descompromissados
Tuesday, May 15, 2007
Sunday, May 13, 2007
Tuesday, April 24, 2007
traje retrô
Overservice
Unservice
não servilismo
sem acordo
vamos celebrar
com blackout
dá pra ver
todas as estrelas
a moça de baixo
reclama
a luz voltou
que pena
já que não posso
estar lá
fico aqui mesmo
o Preservice para
a Macedônia
tão longe que minha
imaginação nem alcança
imagino uma visita à
São Paulo
Seu Paulo vai gostar
do meu jantar
juntar os dias
todos na mala
e daqui vou
pra lá
ir pro museu
ver um show
e comer no Bexiga
dar uma vasculhada
talvez encontre
Mário
ou até o Modernismo
sem casa
num traje retrô
mendigando poesia
pelas ruas do
super-giro capital
non-black-out
praia mar amor
longe e fácil
pra infantilizá-la: uma gota de drama
O ibisco incolor mergulha na'reia
sob nossos pés
um quando é eterno
na aventura do sem rumo
praia, mar, amor e tudo bem
Fomos furando o lusco-fusco
do dia que ficou velho
aos olhos.
Fogueira de sol lá atrás dos montes
tato de gato para saber o que pisar
Eu corro de vagarinho para
não perder a hora
A hora na eternidade é muito rápida
mas tudo bem, há
praia, mar, amor
Saturday, April 14, 2007
O silêncio do grilo
personagem primeira do quadro deste quarto
vê tudo.
Talvez veja rápido, um susto de momento.
Momento pleno
cheinho de transcendências.
Nosso tema é pele, fricção, calor.
A água de mim
a água do tapete
a água do copo
Fomos feitos de fala, estalos mentais
e poesia.
Deslize num texto que revela múltiplas esferas
pulamos de uma para a outra
bolha macia e límpida dos bons encontros.
Encontro em mim, pulso em mim.
E se vejo a imagem curiosa do teu silêncio,
tenho pressa!
Busco ver-me no espelho
da cara raspada a cada dia da semana,
a cada passo.
Milésimo olhar luminoso que não deixa a noite
ser toda noite;
Milésimo raio silente entra estreito pela janela;
Milésimo som que cala o grilo denunciante
da fadas.
Milésimo toque esculpe o corpo pronto;
Milésimo segundo que a lua nos olha
sem curiosidade e nem juízo
sem apagar o sorriso faceiro
sem vergonha, olha
e só olha.
Três cores do Cinco
Toda sorte de idéias insistentes estavam ali, num cutuque interminável, insuportável.
Inebriada no devaneio encontrei umHierofante lindo!
Tinha uma estrela no peito.
Cinco pontas revelavam o que outrora havia sido um menino.
Levava um cajado de três esferas em sua mão direita.
Três Alephs que mostravam ali o completo universo;
as três eras, o sim, o não e o entre.
O Hierofante me contou sim, sobre cada uma delas.
Falou da esfera vermelha onde tudo acontece para configurar os homens
sendo esta a primeira, a do exterior
onde se dão os nomes e as formas.
Muitas vezes opressora
quase sempre onde a servidão é engolida pelos milhares de Minotauros
que são muito mais homens, canibais.
Falou-me também da esfera negra;
a mais complexa e paradoxal.
Aquela que contém o tudo e o nada, o zero e o menos um.
Onde nos perdemos e nos encontramos infinitamente,
o que configura o templo interno, profundo e enigmático das paixões
que nunca conseguimos desvendar,
é que nos pede para ser deste jeito, assim.
E para o fim do começo, me contou sobre a esfera que é um azul,
onde a história é contada.
Uma esfera mais de ontens do que de hojes.
Lá, as outras duas se encontram.
Formam as linhas de pensamento que a cada tempo
um homem quis dar um nó para iniciar outra costura.
Alí há guerra, tortura, insanidade, o abjeto, o feio, o resto, a arte, o holocausto.
Ali estão as trajetórias dos pensantes, dos inconformados, dos sábios e dos errantes.
Ali está a filosofia que pinta os óculos dos viventes,
que sejam flâneur entre a gente ou
apenas um voyeur do lado de fora do cajado trisférioco,
da trindade humana que carrega Hierofante.
Não falamos de infinito, assim era o momento
não há como falar do momento vivendo ele.
Minhas reminiscências escoam para um beco onde há o todo.
O Hierofante esteve intensamente dentro de mim
e a ele dei-lhe minha melhor parte.
Percorremos do vermelho ao azul, ao negro,
ao vermelho, ao negro, ao azul, ininterruptamente.
Apresentou-me ditadores, artistas e loucos
no curso da intensidade do deslize pelo corpo
templo maravilhoso abandonado à natureza.
Thursday, April 05, 2007
Um dia mais Lindo
cabelos de vento e pele de fruta.
Meu corpo sentia todo como um
rio sinuoso e forte
correndo silencioso
por entre o barulho rápido
da pequena parte da civilização
onde agora existo.
Agora existo!
Vivo, porque encontrei
claro pulso no teu olhar
escuro e profundo
que me contempla como
o rio sinuoso e fundo
imagem de mim.
Você, meu carinho
eu, teu fogo
nos desvendando
palmo a palmo
beijo a beijo
carne a carne.













